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>> sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Ajustou a gabardina enquanto olhava para a rua. A chuva fustigava os poucos que se aventuravam por ali. Há muito tempo que o negro da noite tinha pintado os edifícios daquela pouca iluminada artéria.

“- O Inverno chegou com força, não?”

Um ligeiro aceno foi a resposta ao sorridente porteiro da biblioteca.

Todos os dias ele era o ultimo a sair, mas hoje era diferente. Depois de quilómetros de livros tinha chegado ao fim a demanda.

Uma súbita força empurrou-o para a rua. Desamparado caiu na calçada, seguiram-se dois estalidos secos.

“- Estou… Sou eu. Sim, preciso que mande alguém limpar a entrada… sim, sim, está tudo tratado…”

O porteiro guardou um papel branco no bolso, fechou a porta e desapareceu engolido pelas trevas daquela já tardia hora.

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No sentido...

>> quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Andei estes dias todos a pensar no que dizer.

Este será com toda a certeza um dos textos mais complicados para mim.

Paro... Como já escrevi nos comentários ao final da viagem, em alguns momentos da vida é necessário uma avaliação, uma autocrítica e uma decisão.

A avaliação:
Sinto-me satisfeito com tudo o que fiz na blogosfera. Até vou mais longe, foi a ela que me agarrei quando passava os dias imobilizado num quarto. Se não fosse a bloga, eu não teria “conhecido” tanta gente e feito belíssimas amizades.

A autocrítica:
Escrevo mal. Como alguns comentadores já me disseram, no entanto acho que tenho melhorado. Tenho a certeza e graças ao meu professor particular, grande Joshua,para alem de muita dedicação minha, irei evoluir e crescer.

A decisão:
Parar ou melhor suspender.
Só assim terei tempo para adquirir nova e melhor bagagem.

Não, isto não é um abandono, não é um deixar todas as pessoas que tiveram a paciência de me visitar e ler.

Já tenho saudades de todos, já tenho saudades de receber as vossas opiniões. Já sinto falta daqueles que me apoiam, me criticam e mesmo daqueles que apenas dizem “muito bem”.

Eu estarei por aqui, mas estarei agora mais tempo com quem amo e que não tinha tempo para estar.

Um “até já” a todos, todos são muito importantes.

Em especial ao grupo do polvo, Quintino, António e Joshua.

Eu volto já.

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A viagem - O quarto (Conclusão)

>> quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

(A viagem - Ver capitulo anterior)

Estou cansado deste lugar..
Conheço de cada tonalidade das paredes. Sei cada nó da madeira destes móveis.
Já não consigo ler, já não consigo ver mais televisão, já não consigo pensar. Aqui estou imóvel e com dores.
Não suporto mais estes fixadores, já não suporto mais esta depressão.

“- Estás a terminar A Viagem?”

O sorriso encheu de sol o quarto. Depois de tantas horas sozinho com os meus delírios, ela é a razão da minha pouca sanidade.

“- Deveria agora terminar a historia…”, foi a minha pouco convicta resposta, “não a quero arrastar no tempo.”

Ela, sempre serena, sentou-se ao meu lado. O seu perfume e a sua mão suave pousaram no meu rosto. Não se apoquentou com a barba de vários dias.

“- Estás bem?”

“- Sim. Hoje sinto menos dores.”

Desviou a sua atenção para história que eu escrevia. Delírio de alguém que arriscou escrever e mostra o escrito ao mundo.

“ - E como acaba?”, os seus olhos percorreram o ecrã.

A fonte de Montjuic era um belíssimo lugar. Em alguns dias da semana e de noite, podia-se assistir a um fantástico festival de agua, luz, cor e som. A fonte conjugava tudo num bailado que trazia inúmeros turistas.
João e Marie assistiam ao espectáculo. Não disseram uma palavra, apenas se encostaram um ao outro. Apenas deram as mãos. Não era preciso dizer nada, os sentimentos eram superiores ao que se poderia dizer naquele momento.
Estavam unidos, continuariam unidos e lutariam por serem felizes. O passado ficou onde estava, o importante era o agora.

“-Que achas?”

Ela hesitou…

“- Já sei o que pensas…”, continuei sem dar espaço para a pergunta, “Tem de terminar assim. Faz lembrar aqueles romances lamechas onde tudo acaba bem. Aqueles contos que trazem sempre um viveram felizes para sempre.”

“- Sim, é isso.”

“- No entanto A Viagem não acaba aqui. Aqueles dias, aquele lugar junto à fonte, são apenas o começo da viagem. Eu não sei como acaba, aliás, acredito que ninguém saiba como acaba.”, regressei por instantes ao ecrã.

“- Tens razão, tinha de ser assim.”

“- As pessoas querem que tudo termine bem, fartas de desgraças e de tristezas estão elas cheias. Tu, principalmente tu, sabes como o que aqui está escrito não é ficção de sentimentos.”

Ela olhou-me com aqueles olhos que me hipnotizam e abriu o seu sorriso.

“- Eu amo-te, João.”

“- Eu também te amo, Marie.”

(Agradeço a todos os que tiveram a paciência de me ler, a todos os que me aturaram e a todos os que sobreviveram aos meus delírios.)

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A viagem - A visita

>> quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

(A viagem - Ver capitulo anterior )

João abandonou o autocarro na Praça da Catalunha. O lugar fervilhava pelo movimento de milhares de pessoas.

Do alto da rua, João tinha um belíssima perspectiva das Ramblas. Totalmente lotadas, transmitiam um sabor especial, quase mítico.

Eram extensas, iam desde a Praça da Catalunha e chegavam quase ao Mediterrâneo.

De passeios largos, incluindo o do centro, que envolviam duas vias com trânsito bastante condicionado,  permitiam um enorme espaço para todas as actividades que a caracterizavam. No passeio central erguiam-se característicos quiosques que tudo vendiam. Começando em jornais e acabando em flores, a agitação por ali era muita.

Descendo, do lado direito surge o magnifico edifício do Gran Teatre del Liceu, seguido pelo conhecido e tradicional mercado (Mercat Boqueria). O mercado era um mar de cores, onde os produtos eram colocados de forma atractiva e dando um aspecto limpo. A fruta não era colocada em pilha, era alinhada em autenticas pinturas, onde se conjugava os cheiros e as cores.

De seguida e na esquerda, João observou a magnifica Plaça Real, também ela inundada de gente, grande parte turistas.

Enfeitando as Ramblas, outra característica delas, os artistas de rua faziam notar sua presença. A atenção era maioritariamente dirigida para os homem-estatuas. Eram sem dúvida verdadeiras obras de arte.

Já perto do final, outro tipo de artista fazia-se notar. Uma montanha de turistas entretinha-se a tentar adivinhar as cartas, evidentemente apostando dinheiro e muito.

Perto do mar, João encontrou o Mirador de Colom. Subindo a estatua, podia ter uma belíssima perspectiva sobre a zona. O World Trade Center, a marina, a Rambla de Mar, O L'aquàrium e o Multicines eram os pratos principais.

Depois, avançou para a Rambla do Mar e instalou-se no restaurante combinado. Poucos minutos depois um suave beijo, seguido de um familiar e belo sorriso, anunciaram a presença de Marie.

O almoço alongou-se por entre Tapas, Paella, sorrisos, cumplicidade e carinho. Durante a próxima semana nenhum compromisso externo se colocaria entre eles. Entre eles apenas o compromisso de ficarem juntos e visitarem Barcelona.

Depois da visita daquela zona, com um fabuloso L'aquàrium, onde se podia passar debaixo do gigantesco aquário. Mergulharam no Museu d'Història da Catalunya, apanhando depois autocarro turístico e avançando para o Barri Gòtic.

Seguiu-se, durante o resto da semana, um conjunto de visitas a todos os sítios recomendados e fundamentais para qualquer visitante. João conheceu tudo o que lhe faltava conhecer, o Museu de Picasso, a fabulosa arquitectura da Estaciò de Sants, a Plaça d'Espanya, o extraordinário Poble Espanyol, o magnifico Palau de Montjuic, a Anella Olímpica, La Pedrera de Gaudí, terminando na obra emblemática de Barcelona, a Sagrada Família.

(continua)

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A viagem - Na bola

>> quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

(A viagem - ver capitulo anterior )

Num primeiro olhar, João achou aquilo tudo menos um estádio de futebol. O impacto era de uma montanha de betão.

As visitas teriam sempre de passar pelo museu FC Barcelona President Núñez, só dali teriam acesso a uma varanda com vista para o interior do recinto.

A entrada era feita através de uma passagem aérea, situada sobre o gigantesco parque de estacionamento. Envidraçada permitia uma boa perspectiva sobre área, incluindo o túnel de acesso ao parque privado dos jogadores, técnicos e dirigentes.

Na entrada desse túnel, talvez uma dezena de jovens, vestidos com as cores da casa, faziam uma espera a quem entrava e saia. Ali permaneciam gelados na ânsia de um autógrafo.

Contrariamente ao que sempre julgou, o interior do Camp Nou teve um impacto pela negativa. João acreditou que talvez fosse por estar vazio, mas 140 000 cadeiras de plástico, com um aspecto degradado, rodeando um campo de futebol, era tudo menos apelativo.

Cada vez compreendia menos o fascínio por tal forma de desporto, hoje tudo menos desporto, um negócio de milhões, suportado por milhões e apoiado por milhões.

João recordava-se quando vivia em Aveiro.

Ele deveria ter uns seis anos e aquela tradição de ir com o pai ver o futebol ao domingo, era realmente fantástica. Eram tempos de alegria e inocência… bem, vista agora as coisas, João achava que era mais a recordação do pai e o companheirismo, que lhe traziam as  saudades e não o futebol propriamente dito.

“- Tão a ver?”, ouviu-se ao lado do João, “isto não presta para nada!”

Tu queres ver, outro português?”, foi o pensamento do João. Virando-se de seguida.

Desta vez o João não fez nada e nem repararam nele.

“- Esta coisa lá se compara ao meu Porto?”, disse o homem, apontando para as cadeiras.

Deveria ter quarentas e tais, casaco comprido em tons azuis, gorro a esconder grande parte da cabeça, óculos escuros, luvas de cabedal preta, tudo rematado com um charuto de aspecto cubano.

“- Lá é que é, tudo novo, azul e branco como manda as regras. Aqui é uma porrada de cadeiras vazias e porcas.”, continuava o portista.

O fulano seguia o seu monólogo e sem ligar minimamente ao resto dos visitantes.

“- Vão mas é todos para o C******. Paguei para ver isto, raios!”, dando meia volta, avançou firmemente na procura da saída, “Vou mas é ver o do Espanhol, que ao menos é azul e branco.”

João ainda tentou perceber a personagem, mas achou melhor continuar. O almoço com Marie nas Ramblas estava marcado. Teria ainda de passar em Fracesc Macià, onde se situa o Museu de Arte Contemporânea (MACAB) e o Centro de Cultura Contemporânea (CCCB). 


Seguindo depois para a Praça da Catalunha.

(Continua)

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A viagem – Sair do parque

>> sábado, 3 de Janeiro de 2009


João percorria aquele belíssimo edifício, era sem dúvida deslumbrante.

Situava-se na parte alta da cidade, o Monestir de Pedralbes era uma das melhores amostras da arte gótica de Barcelona. A maior parte do mosteiro era agora ocupado por um museu, só uma pequena ala era usada pelas freiras.

João admirava o jardim central do edifício, a imagem era de calma e meditação.

Na sua mente ainda estavam bem vivas as palavras de ódio de Hoshea. João ouvira-o durante bastante tempo, tentara compreender toda aquela genialidade, toda aquela força.

Hoshea fixava-se sempre numa Maria Lurdes, razão de todos os seus males. Ela era presença constante nas suas divagações.

Após aquele tempo todo de conversa, onde muitas vezes era um monólogo que deixava João arrasado perante os termos empregues pela personagem, a certeza instalou-se no seu pensamento.

Mais do que ódio e sofrimento, Maria de Lurdes era a inspiração de Hoshea. O mais provável é que sem ela talvez Hoshea não existisse, pelo menos naqueles termos.

Se calhar, Hoshea não é só o pão com manteiga que esconde numa caixa hermética. O seu discurso, mergulhado nos clássicos, é em si uma capa que cobre o mendigo. Indigente que reclama por eterna justiça. Excluído que se recusa a dar o primeiro passo. Sonhador que nunca aprendeu a voar.

João, naquele lugar de serenidade, desejava que Hoshea direccionasse toda aquela força para algo que realmente valesse a pena. Desejava que ele saísse daquele parque, que abrisse as asas e realmente voasse.

Após uma visita extraordinária ao Palácio Real, construído para Alfonso XIII e agora contendo dois museus, onde se deliciou com os belíssimos jardins, João seguiu para o Camp Nou.

(continua)

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A viagem - Embalagem fechada

>> sábado, 27 de Dezembro de 2008

(A viagem - ver capitulo anterior )

Durante algum tempo imperou o silêncio. Ao longe, a névoa dissipava-se mostrando o Mediterrâneo em todo o seu esplendor.

“- Dois portugueses em Barcelona, sim senhor, estamos em todo o lado…”, o homem esticou a mão, “Carlos mas os meus amigos chamam-me Hoshea.”

“- João…”, foi a resposta de um intimidado João, pouco habituado a tanto entusiasmo e força.

A conversa foi-se desenvolvendo, mas na maior parte do tempo era apenas um monólogo. O João fazia um enorme esforço para tentar acompanhar o que Hoshea dizia.

Estivesse ali o antigo João e já teria há muito desligado, no entanto este João lutava para acompanhar e aos poucos ia-se deixando envolver conversa.

O dialogo girava, corria e navegava pelo mundo, passando quase sempre por “Ela”. João tentava perceber quem era “Ela”, quem seria a causa de tão grande dor.

“- Recordo-me perfeitamente desse maldito dia em que suspirei
que mais valia não ter sonhado alguma vez em ser feliz
para depois mergulhar ou no nada ou no Mar do ódio e do Faz de Conta que Existo!
Dia de sentir o gume frio da Torquemada Manipuleira Medusa Petrificante,
e de todas as sobrecargas desumanas,
e de todos os conflitos entre nós,
contorcionista das verdades incontestáveis que só ela controla e só ela define.”, disse Hoshea .

De vez em quando lá vinha a oferta de um pão com manteiga. João acabou finamente por aceitar e adorou, era muito bom. Ficou mesmo chateado consigo próprio por não ter aceite logo no início.

“- Estou a ver que gostou. Eu passo a vida a oferecer o pãozito e nunca ninguém o aceita. O problema é que eu não abro o tupperwer e quem olha para ele não quer ter o trabalho de o abrir.”

João entendeu perfeitamente o sentido da frase. A maioria anda neste mundo pelas coisas simples, que não dêem muito trabalho. Analisam tudo pela embalagem. Se for "transparente" aos seus olhos e simples de abrir, provavelmente comerão um pão sem sal e acreditaram que é um manjar dos deuses. Se for complexa e difícil de ver o interior, então não querem saber e perdem na maioria das vezes um belíssimo pão com manteiga.

(continua)

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